Memórias e desabafos sobre a fotografia

Fotografia

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Quando decidi dedicar mais tempo ao analógico e não me focar apenas no digital, decidi-o pois percebi que pese embora o digital seja mais económico, mais fácil e mais intuitivo, percebi que banalizou a fotografia. Por um lado democratizou-a, deixando de ser um nicho só acessível a certos artistas, mas popularizando-a de certo modo, fazendo com que cada pessoa que tenha acesso a poder comprar uma câmera seja um potencial artista.

Memórias e desabafos sobre a fotografia

O bizarro nisto tudo é que dou por mim a ver páginas e páginas de pessoas que compram uma câmera e imediatamente criam uma página e se intitulam fotógrafos.

Na realidade todos somos fotógrafos, basta captarmos uma fotografia com um dispositivo capaz de tornar luz em fotografia, para tal em termos formais aquele que captar aquela fotografia é o fotógrafo.

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No meu entender Fotografo é aquele que se dedica em exclusivo à arte da fotografia, e com esta definição me auto excluo.

Eu não sou um Fotógrafo, sou sim um apaixonado pela arte da fotografia, que com todos vocês aprendo um pouco mais, e com todos vós partilho o meu pouco conhecimento, na esperança de poder ajudar, influenciar e recuperar esta arte, que para além de democratizada eu diria está banalizada.

E foi por isso que reverti todo o meu processo, e sem isto querer dizer que abandonei o digital, regressei sim à arte da fotografia pensada, em que cada click parte de uma construção pensada e bem elaborada na minha cabeça, onde a fotografia é composta muito antes do soar do click do obturador ou do clap do espelho que soa como que ao anunciar que aquele momento foi eternizado.

E foi por isso que decidi digitalizar todos os meus momentos analógicos, para tal adquiri um scanner que me permite digitalizar filmes de 35 mm.

Vasculhando coisas guardadas há muito tempo, nas gavetas cheias de memórias passadas, encontrei caixas e caixas de envelopes cheios de negativos. Ou seja memórias do meu passado na fotografia.

Quando comecei a olhar para estes negativos em contra luz, e a tentar perceber que fotografias eram. Reparei que a maioria daqueles negativos tinham sido criados por mim mesmo, e naquele instante por momentos que foram mais de 3 horas tive a perceção de viajar no tempo, num regresso ao passado das minhas memórias, onde senti cada momento como se voltasse ao momento em que aquela fotografia foi captada.

Todas as recordações se tornaram reais na minha mente, a modo de me arrepiar e viver tudo de novo, e realizei que tudo isto se devia ao meu amor pela fotografia no tempo em que comecei a fotografar.

Como todas as fotografias eram pensadas, como cada imagem era cuidadosamente pensada, para além de imortalizada no filme, elas estavam todas imortalizadas na minha mente.

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Isto faz-me pensar se as milhares de fotografias que são hoje criadas publicadas no Instagram, nas redes sociais, deixam esta mesma marca na memória como estes negativos que me fizeram viajar no tempo.

Ou as câmeras que são compradas de forma fácil, e rapidamente guardadas pois nunca houve tempo para realmente pensar a fotografia e se é para fotografar no modo automático mais vale usar o smartphone.

Ou os ditos auto intitulados fotógrafos que entram e saem da profissão.

O que sinto é que a culpa não é da democratização da fotografia, nem dos equipamentos mais acessíveis, mas sim da cultura que se vive nos dias de hoje do “tudo fácil” e disparam-se milhares de fotografias enchem-se cartões de memória, tudo na esperança que uma saia boa e só essa após a manipulação do RAW em Photoshop é postada para impressionar os amigos e uma legião de fãs por alguém que não quer aprender fotografia mas sim a manipular imagens para impressionar um público, não com a arte de saber fotografar, mas com um workflow copiado que sem saberem bem o motivo pelo que o fazem, sabem apenas que ao fazer as fotografias ficam mais saturadas, são passiveis de se tornar mais populares nas redes sociais.

Sei que seguramente este artigo vai ferir seguramente alguns, mas a esses que de facto se sentirem feridos, pergunto quantas das fotografias que captaram ultimamente vão daqui a 20 anos ter o mesmo impacto que referi, quando viajei no tempo ao redescobrir aqueles negativos?

 

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