Lisboa pessoas e gentes

Passear por Lisboa ao fim-de-semana, pode levar a viver momentos diferentes dos habituais e dar a conhecer um modo novo de ver a fotografia.

A fotografia de rua ou streetshooting, é uma fotografia de impacto, que transmite emoções e vidas passadas.

mendigo

Procure momentos, emoções, procure que a sua fotografia seja muito mais que o congelar no tempo de um momento, mas que a fotografia transmita alma e emoção.

Procure dar sentido à sua fotografia transmita uma mensagem.

Por vezes captar um momento transmite-nos algo já vivido ou vivenciado.

Na fotografia abaixo recordei um pequeno conto que o meu pai escreveu em 2003 e que ilustro com a fotografia que se segue.

menina ana

A menina Ana

Ali estava ela, como habitualmente, sentada no banco do jardim público, alimentando o bando de pombos e pardais que, diariamente, sempre a esperava àquela hora matinal.

     Era, aos quase oitenta anos de idade, o seu passatempo favorito. Uma obrigação a que não queria nem desejava faltar! Não ia à missa, embora fosse católica, mas dos seus passarinhos, como carinhosamente lhes chamava, só se maleita grave a impedisse de sair de casa, faltaria a esse compromisso que impusera a si mesma.

     Da vida não se queixava e aceitava tudo com uma naturalidade que deixava perplexas as pessoas que a conheceram nos tempos áureos de abastança. Tivera tudo: amor, carinho, riqueza. Tirara até um curso de arquitectura mas, como às vezes dizia, jamais arquitectou fosse o que fosse. Para ela, tudo estava feito e o seu curso tinha-se perdido num traço imaginário, sobre um cavalete, sem forma ou cor.

     Os pais, abastados proprietários, jamais tinham permitido que a sua menina, filha única, dependesse de contratos ou empregos para angariar o seu sustento. O que tinham, seria dela e não necessitaria, pela vida fora, de se preocupar com o futuro. Já bastava as canseiras a que se tinham sujeitado para amealharem o seu pecúlio. 

     Tivera vários devaneios amorosos mas não chegara a casar. A sua ânsia de independência, a que não faltava uma certa arrogância para com aqueles que se deixavam seduzir pela sua beleza, mesmo considerando que se tratava dum casamento vantajoso, depressa se afastavam. Nenhum se pôde gabar de ter merecido aprovação dos seus progenitores. A menina Ana, assim se chamava esta velhinha de quem vos falo hoje, era a flor que perfumava aquele lar egocêntrico. Jamais permitiram que a sua filha se libertasse das suas protectoras asas.

     Primeiro o pai, e ano e meio depois a mãe, deixaram a Ana, então mulher madura, só no mundo e já com um reduzido número de amigos que, por cortesia, ainda se lembravam dela pelo Natal ou a cumprimentavam quando com ela se cruzavam.

     Tinha então cinquenta anos e o seu rosto começava a dar sinais duma velhice prematura.

     Sempre que se sentava, à noite, frente à lareira, onde outrora tão agradáveis momentos passara com os seus pais, recordava as advertências que lhe faziam em relação aos seus devaneios e as subtis insinuações, dissuadindo-a de tomar como séria a proposta de algum moço por quem se sentia atraída. Nunca dera ouvidos ao coração e ficara só num mundo que nem conhecia bem.

     Ficara desconfiada, insegura e remetera-se a um profundo isolamento. Comia pouco e só saía para comprar o indispensável à sua subsistência. Dos colegas de curso, nunca mais ouvira falar. Estava só, nem tios, sobrinhos ou afilhados. Partilhava os seus momentos de solidão com um dedicado gato que, junto à lareira, agora modesta, gostava de saltar para o seu colo e ali ronronava enquanto a dona dormitava.

     Os prédios, cujo rendimento lhe tinham permitido viver com desafogo durante os primeiros dez anos após a morte dos pais, tinham começado a degradar-se e careciam de reparações que o seu orçamento não suportava. Começou por vender um, a seguir outro e assim foi reduzindo um património cujas rendas não tinham acompanhado os preços que se faziam sentir num mundo em permanente evolução.

     Vivia agora num modesto rés do chão, que entretanto ficara devoluto, poupando as poucas economias que lhe restavam da venda da casa onde sempre vivera e que era o orgulho dos seus falecidos pais. Nunca mais por lá passou, à porta da casa que foi o único ninho de amor que conheceu. 

    Foi a partir desse momento que comecei a ver a menina Ana, como assim lhe chamava quem sempre a tinha conhecido, sentada, à mesma hora, naquele banco do único jardim da vila. O seu rosto, marcado por vincadas rugas, tinha o ar sereno de quem já nada deve ou espera da vida.

     Um dia, ganhei coragem e sentei-me a seu lado. Disse-lhe que não era dali, que tinha feito algumas perguntas acerca da menina Ana e se ela não se importava de me contar a sua história. Enrugou mais o seu rosto num sorriso que não se iluminou e com a cabeça fez-me um sinal de assentimento. Com o olhar perdido num ponto distante para além do infinito, voz pausada e quase inaudível, falou durante mais de uma hora sem que eu a interrompesse. Tudo o que narrei, saiu sem amargura dos seus lábios.

     Depois de lhe agradecer por tudo o que me revelara, perguntou-me com um brilho nos olhos que não lhe tinha visto antes, se não me tinha apercebido que entre os pombos e pardais andavam dois anjos. Recusei dizer-lhe que não, esperei dois minutos que me pareceram uma eternidade e, fixando-me de novo, disse: São os meus pais, vieram buscar-me. Despedi-me com a voz embargada sem contudo deixar de pensar nas suas palavras. Voltei à vila decorridos oitos dias e disseram-me que a menina Ana tinha falecido no dia a seguir à nossa conversa, sentada no banco do jardim.

     Comprei um ramo de rosas brancas e fui depositá-lo junto à sua campa. Enterneci-me ao ver um casal de pombos que de perto me espiava.  

 

Fernando dos Santos

25/11/2002

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Nascido em Lisboa, Advogado de profissão e fotógrafo de coração, com licenciatura em Direito bem como formação em Marketing e publicidade, dedica-se à fotografia, e produção de contéudos.

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